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Valham-nos as Petições e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.05.10

Enquanto o ministro das Finanças, alguns banqueiros e grandes empresários nos andam a promover como um bom investimento na Wall Street e o PM foi confraternizar com os seus amigos socialistas sul-americanos (e pode ser que com sorte, dele e nossa, volte a ser catapulado para um posto, desta vez planetário, pelo ex-Presidente Sampaio, o promotor da Cimeira), por cá o jornal Sol é multado na módica quantia de 400.000 euros, mais coisa menos coisa. Isto o jornal, porque as jornalistas também levam com uma multa de 5.000 euros cada uma (pelo que eu percebi). É para aprenderem, que este não é um país de liberdades, por cá só se podem subtrair gravadores aos jornalistas. Pensavam o quê? Que havia liberdade de informar os seus leitores? No way! Isso é um entendimento muito extenso e abrangente de liberdade de expressão. Por cá, só se podem esvaziar Comissões de Inquérito. Questionada pelo Mário Crespo, um pouco enfiado, se isto intimidava os jornalistas, a jornalista responde que é uma tentativa de intimidar os jornalistas, mas que no Sol não se deixam intimidar (e parece que o Sol esteve na mira de ser evaporado, como foi o Jornal da TVI). A jornalista até teve uma saida humorística: isto é como a Pide a entrar-nos casa dentro no tempo do Estado Novo ou o Copcon se fosse depois do 25 de Abril. Nem mais. Vão recorrer para as mais altas instâncias, claro está. O que quer dizer o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Nós, os portugueses, ainda lhes vamos entupir o Tribunal, vai uma apostinha?

 

Outro recurso são as Petições. Para o mais elementar numa democracia mas que não temos por cá, Petições. Parece que os deputados não gostaram de uma delas, que pretende a redução do número de deputados de 230 para 180, dizem que prejudica os pequenos partidos. Neste momento, só lá vejo um pequeno partido, já são todos médios partidos. E dentro em breve, segundo estudos de um politólogo (penso que de André Freire), esta tendência para partidos médios irá reforçar-se com a dispersão de votos. Ora, PS e PSD irão encolher para dar espaço vital ao CDS. Isto já sou eu a prever. O BE e o PCP tenderão a manter-se como estão. Os votos irão arrumar-se mais democraticamente e haverá mais governos de coligação. Além disso, somos um país pequeno, não precisamos de tantos representantes partidários, a maioria dos quais nem conhece o país como deve ser, para eles Portugal é Lisboa. Os partidos também terão de se regenerar, assim como libertar-se da sua cultura política de "elites estatais". Terão de escolher profissionais na vida privada, mais dinâmicos e criativos. E que não venham todos da advocacia, Santo Deus!, com toda a verbosidade legislativa e a flexibilidade ética relativista. Mais variação de formações, por favor! Também o tempo de serviço como deputado terá de ser reduzido, vemos ali petrificar tantos deles...

 

 

publicado às 21:40

A agendinha do Professor Marcelo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.05.10

Ontem ficou clara, claríssima, a agendinha do Professor Marcelo. A mensagem estava lá. E não é muito diferente da agendinha do Presidente: Portugueses, aguentem o circo de pé até à minha reeleição. Não façam ondas, aceitem o governo e façam mais um esforço para pôr isto a crescer...

Ou do "novo PSD": Portugueses, aguentem o circo até à reeleição do Presidente que depois o poder vai-nos cair no colo e já poderemos gerir o país. Foi pelo país e é a pensar no país que fizemos o sacrifício de dar a mão ao governo. Aguentem mais um aninho que depois se verá...

Ou do próprio governo: Portugueses, não há alternativa. O mundo mudou em quinze dias. Estas medidas eram urgentes para nos continuarem a emprestar o dinheirinho. Eu não queria aumentar os impostos, mas não tive outra alternativa. 

Querem ver?

 

O Professor começou por nos querer convencer que não haveria alternativa possível: mais 4 meses para eleições, a 7 meses das últimas, os especuladores caíam-nos em cima, estão todos loucos?

Não, Professor. Seria um governo de Salvação Nacional da responsabilidade do Presidente. Como sabe, este governo é um tremendo equívoco e não irá resolver nenhum dos problemas que há para resolver. Continuará a arruinar o país e irá enterrá-lo ao ponto de perdermos a nossa soberania, além de aumentar a pobreza que já aí está. Onde está a sua consciência cristã católica? Nenhum cristão que se preze olharia para este desequilíbrio social como aceitável ou inevitável. E além disso, os especuladores não são amadores, também já viram as incongruências e loucuras deste governo, que não oferece qualquer garantia de coisa nenhuma.

 

Mas o Professor não se fica por aqui. À pergunta sobre a revolta dos cidadãos nas ruas, se seremos uma segunda Grécia, responde que não, que os portugueses são realistas (isto na reportagem de apresentação deste novo programa na TVI) e no próprio programa ainda vai mais longe, ataca o líder do PCP, não apenas em relação à moção de censura ao governo (tentando retirar-lhe o peso e a sua legitimidade democrática), mas também na prevista convocação de greves e de outras formas de protesto anunciadas.

E que estratégia escolhe o Professor para o atacar? A pior possível, a ideológica, para diminuir a sua capacidade de mobilização dos cidadãos. Até aqui, nada de novo. Já o próprio PM o faz, sempre que se dirige à bancada do PCP nos debates na AR. Aqui, o Professor conta-nos um episódio em que o líder do PCP terá sido muito brando com o regime da Coreia do Norte.

O Professor esqueceu-se de algumas regras-base da democracia e da relação de cada partido com os eleitores. O PCP tem tanta legitimidade de existir como qualquer um dos restantes partidos. O PCP não esconde dos seus eleitores qual é a sua ideologia, têm os textos em que se baseiam, sempre tiveram os textos. Qual é afinal, moralmente, mais coerente: defender uma ideologia ou bater-se por interesses corporativos (PS e "novo PSD")? Ou por interesses não confessados (BE)? Ao menos, o PCP diz ao que vem, é coerente. E defende, no seu discurso, os mais desfavorecidos e esquecidos da população portuguesa.

Mas a agendinha tinha lá essa mensagem, não podia falhar: não sigam o PCP, não protestem, não há alternativa a este governo, aceitem as medidas que eles vos apresentarem e cara alegre, esperem até à reeleição do Presidente, depois o PSD já poderá aceder ao poder, já viram?, as sondagens dizem que já estão muito próximos, mas o PS ainda vai à frente...

 

Já tinhamos ficado esclarecidos quanto à coerência do governo, do "novo PSD" e do próprio Presidente, agora percebemos que o Professor utiliza o espaço de comentário político para defender a mesma agendinha e os interesses de cada uma das personagens deste circo. Já tinha relativizado o descontentamento de diversas vozes de colegas seus (Santana Lopes) reduzindo-o a antipatias pueris, que já não podem ouvir o PM, como se fossem essas as principais razões... E ainda arranjou tempo para relativizar o trabalho da Comissão de inquérito na AR, relativizando assim a mentira política, aceitando-a como natural, e quase até a legitimando. Incrível para alguém da área do Direito. E que se diz cristão e católico...

 

De que é que se esqueceu o Professor?

Esqueceu-se o Professor que as circunstâncias, a conjuntura, e a gravidade das nossas circunstâncias nesta conjuntura por razões estruturais + perda de confiança no governo + falta de rigor, de coerência, de equilíbrio e de justiça nas medidas apresentadas + falta de visão estratégica e capacidade de gestão política do governo + revolta dos cidadãos inevitável perante grandes desequilíbrios sociais = não vai encaixar na sua agendinha nem na agendinha das ilustres personagens que o Professor aqui representa. Lamento, mas não dá.

Assim, mais cedo ou mais tarde vão acordar das vossas ilusões e vão ter de esboçar nova agendinha. Vão perceber que há limites para o descaramento e para a insensibilidade em relação aos que têm pago a factura dos desvarios destes governos socialistas. Vão perceber que para mobilizar os cidadãos é preciso ter conquistado e merecido a confiança dos cidadãos, que eles se sintam realmente representados, e isso faz-se com exemplos concretos, inequívocos, não por discursos vazios e artificiais. Vão perceber, finalmente, que o país só poderá começar a crescer quando a economia puder respirar, porque vive do movimento de produtos e mercadorias, para isso terá de ter condições favoráveis (menos impostos, redução do peso do Estado, Justiça a funcionar, áreas-chave protegidas, Educação de qualidade, recursos humanos) e for gerida com competência e visão, bom senso e sentido de responsabilidade. 

 

 

publicado às 09:09

Se a queda do governo é um desastre, a sua manutenção é o nosso fim. Ainda estamos a tempo - e será por pouco tempo - de salvar as ruínas e de nos levantarmos muito a custo, todos juntos.

Manter este governo é perder essa possibilidade, é sermos vampirizados e escravizados por esta "nova elite" de bárbaros (PS, e agora a emergir, o "novo PSD" e uma parte do BE, ávida de poder estatal elitista).

 

É ver a destruição de todas as áreas-chave da nossa economia, uma a uma, empresas a fechar, e em breve cidadãos desesperados e revoltados nas ruas, tal como na Grécia. Ali atrás considerei que os cidadãos deveriam ter ido para as ruas logo depois da apresentação do OE 2008, onde já estava inscrita toda a cultura e agenda do PS, agora já não era tempo de protestar. A apresentação destas "medidas" (termo cínico e repugnante para nomear esta escravização fiscal) veio alterar tudo: não vejo qualquer hipótese dos cidadãos as poderem aceitar sem um protesto generalizado. Seria a servidão voluntária. Onde estão os cortes na despesa? O exemplo do Estado?

 

Além disso, este governo perdeu toda a credibilidade e legitimidade, logo, não merece a confiança dos mercados e dos avaliadores externos, o crédito será cada vez mais escasso e caríssimo. Também dentro do país, já ninguém acredita na sua informação contraditória: estas medidas são para perpetuar e agravar, até à escravização total dos cidadãos. Esta é a marca registada socialista: não criam riqueza, só sugam a que existe e o esforço dos outros, nem sequer criam as condições de criação de riqueza, é o eucalipto (magnífica expressão de Bagão Félix em relação ao OE 2008, que tudo sintetiza).

 

Não há qualquer vantagem em manter esta agonia. Se o governo tivesse dado sinais de uma mínima orientação e bom senso, dando o exemplo e cortando na despesa, a começar pelas mordomias dos interesses corporativos da "nova elite", ainda vá que não vá. Mas deu o sinal contrário. E ao dá-lo, se já não conseguia mobilizar os cidadãos, agora isso é totalmente impossível. Ora, sem a mobilização dos cidadãos, não vamos a lado nenhum.

Além de tudo isto, revela sinais de completa desorientação, parece mesmo um perú a quem deram o brandy antes de lhe cortar o pescoço.

 

Salvem-nos deste governo! É que se esperarmos por uma iniciativa presidencial, não vamos lá. O Presidente já parece refém do governo e do PS...

 

 

publicado às 12:11

As vozes estruturantes

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.05.10

Vemos cada vez mais vozes dispersas a comentar os gestos simbólicos dos responsáveis políticos, financeiros, económicos, etc. Mas poucos querem falar do essencial. E no entanto, o essencial já salta aos olhos. Emergiu das narrativas, está perfeitamente visível.

Os gestos patrióticos, por exemplo, salvar o país de uma bancarrota. Tipo um herói de banda desenhada, esvoaçante, de capa e tudo.

 

Quem é que ainda não desistiu do país? Esses é que são os gestos patrióticos. Não são os mais espectaculares e deslumbrantes, com lines como essa de salvar o país da bancarrota, de filmes de fraca qualidade para consumo de massas. São os gestos diários de empreendeores dinâmicos, de profissionais competentes, de simples operários especializados, de professores que investem nos seus alunos, de médicos que vivem a medicina como uma vocação, de voluntários que apoiam os mais frágeis de uma sociedade a deslaçar-se (conceito muito feliz de Pacheco Pereira).

 

Definir país: em primeiro lugar, uma comunidade que habita num determinado território autónomo, delimitado por fronteiras bem definidas. Hoje, mais esbatidas, com a circulação livre de pessoas e produtos. A sua autonomia define-se essencialmente em termos económicos, são esses que sustentam a autonomia política, a sua soberania digamos assim.

 

Como definir então o patriotismo? Não é em paradas militares, ou a passar revista às tropas ou a entoar o hino nacional. Nem sequer a colocar o país como publicidade enganosa em jornais estrangeiros. Nem a reduzir a imagem do país a futebolistas famosos.

 

A nível dos responsáveis: a sua prioridade é defender os interesses da comunidade do seu país, a sua sobrevivência e bem-estar, a sua segurança. A sua prioridade será a saúde da economia do país, pois é a base da sua autonomia e soberania, não a deixando comprometer. Essa é a sua primeira prioridade. Manter a coesão social, o equilíbrio necessário, e ser coerente e consequente. Para isso terá de apostar sempre em tudo o que é estruturante, em tudo o que respeita as populações, no equilíbrio interior-litoral. Mesmo que o seu país esteja integrado numa comunidade maior com regras definidas, que implicam a partilha de interesses económicos e políticos estratégicos, o seu país está em primeiro lugar. Claro que o país ganha se a comunidade maior também ganhar com a sua integração e vive-versa, esta integração tem de ser benéfica para ambas as partes. Em qualquer acordo, as duas partes têm de ganhar, é esse, aliás, o sentido de qualquer acordo.

 

A nível dos responsáveis financeiros e dos empresários: defender o interesse da sua empresa é defender o interesse dos seus recursos humanos e do país; a imagem da sua empresa deve estar em sintonia com essas prioridades. Ao definir claramente as suas prioridades, reforça a sua imagem junto do público, dos clientes. Ao antecipar-se, ganha sempre confiança do público e dos seus clientes. Também acaba por abrir um caminho aos restantes que, depois de o criticar, seguem as suas passadas, mas é dele, do pioneiro, a prova de confiança.

 

A nível do povo, digamos assim, dos cidadãos: são deles os gestos mais patrióticos. Também são seus os gestos mais solidários. Têm sido também a base de sustentação do regime político, em condições cada vez mais frágeis: diariamente, na sobrevivência cada vez mais difícil, o que os leva a aceitar trabalho precário, mal pago, sem condições de protecção social, ou mesmo, em último caso, a emigrar. Estes têm sido sempre os mais esquecidos do filme. Poderíamos dizer que a responsabilidade da situação actual do país é sua, pois têm confiado nas promessas fáceis e tentadoras. É verdade. Mas continuo a pensar que a responsabilidade é dos responsáveis pela gestão política do país, pelas prioridades escolhidas, que ignoraram os cidadãos que tratam como meros eleitores e contribuintes.

 

É de vozes estruturantes que precisamos agora, esse é que é o patriotismo verdadeiro. O resto são gestos vazios e inconsequentes, teatrais e nada convincentes. A prioridade é a comunidade do país, as pessoas que o habitam. O interior esquecido e abandonado, o território às ordens e caprichos da centralização do poder na capital. São todos parte da grande comunidade que nos define como país. As áreas-chave da economia que foram desprezadas: agricultura e pescas. Áreas estruturantes, base da autonomia e soberania. A indústria, que foi em debandada para outros países. As micro, pequenas e médias empresas. O comércio diversificado. As actividades baseadas na nossa tradição, a que nos define, a genuína, não plastificada. Esses sim, são os gestos verdadeiramente patrióticos. E não surgem numa reuniãozinha em fim de tarde, para salvar o país da bancarrota. São um trabalho diário, disciplinado,  organizado, sistemático.

 

Onde está o povo nesta fotografia? Lá atrás, muito atrás. Cabe-lhe pagar os desvarios deste governo, com o apoio oportuno do herói de capa e tudo, cabe-lhe passar mais dificuldades, porque as despesas do Estado têm de se manter à sua espera, quando chegar a sua vez. Pois é, pois é, mas está-me cá a parecer que não vai ser exactamente assim que as coisas se irão passar. A rotatividade garantida? Não me parece. O povo vai abrir os olhinhos e verificar quem é que o considera e quem é que o despreza.

 

 

publicado às 10:22

E o mundo mudou mesmo em quinze dias!

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.05.10

E vero! E vero! O mundo mudou mesmo em quinze dias! Querem ver?

 

A banca, que até hoje andava muito em sintonia com a voz oficial governamental ou, pelo menos, não a contrariava directamente, mudou. E não foi em quinze, foi em dois dias! Agora já não há crédito para grandes empreendimentos, a prioridade são as PME's e o crédito à habitação.

 

O governador cessante do Banco de Portugal, que foi catapultado para Bruxelas, já tinha mudado também, e num dia só! Mudou completamente, rodou sobre si próprio e disse o contrário do que andava a dizer há 5 anos. Pena não ter desmistificado o número 6,83, para se redimir.

 

Já o líder do PSD saído das Directas tinha mudado também, completamente, e para isso bastou-lhe uma tarde. Aliás, duas tardes salvo erro. A primeira para se juntar ao PS na luta contra o ataque dos especuladores, a segunda para se juntar definitivamente ao PS na credibilização ou legitimação das "medidas" a apresentar ao país que, por si mesmas, já eram um virote completo do que tinha sido o compromisso eleitoral do partido do governo. Aliás, esta personagem sui generis, refiro-me ao líder do PSD saído das Directas, tem um entendimento muito original e flexível de mudança: além de a entender como mudar de ideias, de perspectiva, de rumo, de prioridades, considera-a como um movimento possível em part-time. Uma tarde junta-se ao PS, no dia seguinte quer afastar-se do PS. Não dá, mr. Change, não é possível. Juntou-se, colou-se, e revelou-se, get it?

 

Ah!, e o Presidente também mudou, e de que maneira! Numa semana acompanha a visita do Papa Bento XVI em pose de católico, com fotografia de família e tudo, e na semana seguinte promulga aquela lei absurda e ilegítima. O veto teria sido entendido como uma posição consequente, a promulgação só pode ter sido entendida como cedência, ou pior!, de quem está refém do governo e do PS.

 

Os únicos que não mudam, além do PM, do governo e do PS claro!, são os jornalistas e os comentadores de serviço, continuam fiéis à ficção nacional, valha-os Deus! Já estamos em pleno mar alto, a pedalar, já o barco foi ao fundo, e ainda as suas vozinhas ofegantes ecoam: estamos a recuperar... há sinais de recuperação... o desemprego parece estar a diminuir ligeiramente... o ministro disse... mantêm-se os prazos de início das obras do TGV... para não perder os investimentos de Bruxelas... de Bruxelas... de Bruxelas...

 

 

publicado às 19:17

A inércia presidencial

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.05.10

Está visto, vai ser mesmo assim. Lembram-se do final do filme que catapultou o Spielberg, O Tubarão? Os dois homens pedalam para chegar a terra. O barco e o seu comandante ficou para trás, mais o tubarão. É como nós estamos agora, a pedalar. Ali atrás ainda falei da hipótese de termos a prancha e as barbatanas (o Presidente), mas ontem já nos veio dizer que vamos pedalar sozinhos. O.K., sr. Presidente. Percebemos a mensagem. Afinal o que significamos nós para esta República? Nós não contamos. Somos apenas os que pedalam. Espero, no entanto, que não apareçam muitos tubarões, já chega! Aquele deu-nos imenso trabalho. Destruiu tudo, o barco foi ao fundo e tudo.

 

Este é o nosso Waterworld, aquele que o Presidente nos pareceu atirar à cara ontem, na promulgação daquela lei absurda: Tomem lá que é para aprenderem! Não foram vocês que votaram neles? Aguentem!

Esta parece ter sido a sua vingançazinha. O.K., sr. Presidente. Percebemos a mensagem. Só que não contribuí para o filme. E como eu, muitos mais. Mas está visto. O mar é a nossa vocação, agora que o barco foi ao fundo. Só que também não espere que continuemos a pedalar para o transportar muito mais tempo. Assim como não continuaremos a pedalar para alimentar mais tubarões. Iremos pedalar, isso sim, por nós próprios, e por todos os que entendem os conceitos básicos: democracia, autonomia, liberdade, bem comum, coesão social, fraternidade.

 

Só uma perguntinha: o que é que afinal se vai festejar este ano? A passagem do cometa Halley em 1910? Mas esse já cá voltou a passar... Então o que é? Tem a ver connosco, os cidadãos deste país? Deixa-me ver... é que não encontro motivo algum para festejar, nem como país, nem como cidadãos deste país. Não, a festa não é nossa. Andamos a ver as festas mais incríveis e não têm a ver connosco. Mas se é assim, também não nos peçam para pagar a conta. Está combinado?

 

publicado às 15:35

De que é que o Presidente está à espera?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.05.10

Há uma pergunta que não me larga: De que é que o Presidente está à espera? E outra: Porque é que o Presidente, a partir de determinada altura, se dirigiu sempre aos cidadãos e não se referiu explicitamente ao governo nem à Assembleia da República?

Este silêncio e inacção presidenciais incomodaram-me desde sempre. Mas interpretei-as como garantia de uma reeleição. Mais recentemente, o Presidente visitou a região da Nazaré e parecia ter iniciado a pré-campanha eleitoral. Seria já para confirmar a sua popularidade? Se foi, confirmou-a, o povo gosta do actual Presidente.

Talvez injustamente, mas também não tenho dados nem informação fidedigna - não esperam que me baseie na informação oficial, pois não? - interpretei as suas opiniões vagas e inócuas aos jornalistas, durante a visita do Papa Bento XVI a Portugal, como a continuação da pré-campanha eleitoral. Depois houve aquele discurso de despedida no aeroporto Sá Carneiro... magnífico discurso, carregado de significado histórico, sociológico, cultural e emocional...

 

Fazer rewind: apesar da cooperação estratégica presidencial, como prometera na campanha eleitoral, o governo hostilizou claramente o Presidente. E de forma sistemática. Culminando numa verdadeira crise institucional e condicionando o Presidente. Era um Presidente visivelmente abalado que se dirigiu aos cidadãos, dando a entender que fora condicionado.

Na altura, reagi de forma pouco tolerante: o que esperava o Presidente se decidira cooperar estrategicamente com um governo arrogante, controlador, ávido de poder, acima de qualquer escrutínio democrático?

Mas a questão mantinha-se: porque é que o Presidente não mudou de estratégia a partir daí? Incompreensível... e assistir à campanha eleitoral para as legislativas de Setembro e à grande mentira nacional em relação aos dados fundamentais da realidade económica e financeira do país sem pestanejar? Não terá sentido sequer um arrepio, como economista, ao ver o número do défice que Constâncio preparara, 2 a 3 décimas abaixo do défice real? E os números do desemprego? Eram credíveis? E a ausência dos números reais da emigração?

 

Tudo isto dá que pensar. Agora, em que pé estamos? Bem, na verdade, já perdemos o pé (glup, glup, glup...) Mas ainda assim, qual é a nossa prancha e as nossas barbatanas? O Presidente. Estão a ver mais alguma hipótese?

Pôr ordem nisto, o governo já não tem credibilidade para governar, e nem legitimidade sequer. Se isto não é motivo de sobra para os apear, não sei o que será... Nomear um governo provisório sugerido pela Assembleia da República mas que não passe pelo "bloco central". Recordo que os actuais partidos mais votados foram-no por equívoco: o PS mentiu sobre a situação real do país e não cumpriu nenhum dos compromissos eleitorais, e o actual PSD não foi o votado em Setembro, o votado foi a política de verdade de Manuela Ferreira Leite, não foi a colagem ao PS.

 

Como vêem, a história recente nacional ainda precisa de ser bem contada, e não é com ideologias, teorias políticas, teorias económicas, blá, blá, blá, é com factos, dados concretos, relacioná-los entre si. O que me leva a mais uma pergunta: qual era afinal a agenda destes senhores que nos desgovernam? A agenda, como é óbvio, não estava no programa eleitoral. Mas já estava, em esboço, no OE 2008. Querem ver? Aí vai:

 

Pelos resultados visíveis, nestes dois anos e meio, e pelas conclusões do debate do orçamento no Parlamento, segundo percebi eis aqui o modelo de desenvolvimento do governo:

  • um Estado forte e autoritário, o tal “monstro do Estado que continua a engordar”;
  • o cidadão existe enquanto contribuinte e é refém do Estado até às gerações futuras;
  • a classe média desaparece e passa a remediada, aumentando-se a distância entre ricos e pobres;
  • Lisboa é o centro do país e das decisões, “o resto é paisagem”;
  • desistiu-se do interior “e Viva España”;
  • privilegiam-se os grandes negócios em detrimento das pequenas e médias empresas.

E o modelo de governação:

·        ser um bom aluno de Bruxelas, a quem se quer agradar, mesmo à custa de dois milhões de pobres no país;

·       entretanto, para o país: anúncios, propaganda, criação de expectativas, através de medidas avulsas cujos resultados ainda estão por avaliar.

(...)

 

Estava ou não estava lá tudo ou quase tudo? Olé! A seguir, irei procurar demonstrar as incríveis potencialidades do marketing político importado ali dos States, esses sim, pros nisso de marketing, evangelização, domesticação e grandes interesses corporativos. Os States ensinam-nos quase tudo sobre o poder à séc. XXI.

E ainda há a questão de saber em que paralelo histórico estamos nós: se em 1383-85, se em 1640. Só que nessa altura não estávamos enfiados e condicionados económica, financeira, política e culturalmente numa centralização do poder em Lisboa. É que assim é mais fácil empurrar-nos para Espanha e entregar-nos a Bruxelas, estão a ver?

Posso desde já avançar, que tudo começou a delinear-se em 95, 96, com os Estados Gerais, que Durão Barroso também deu uma ajudinha, e que o pobre do Santana só serviu para segurar as pontas enquanto o PS tratava de renovar a imagem para o assalto ao arranha-céus português.

 

 

 

 

publicado às 10:44

Obrigada, Santo Padre!

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.05.10

Como já aqui disse, esta vinda do Papa foi por mim acarinhada, embora sem grandes expectativas. Imaginei a sua chegada ao aeroporto, a descida cautelosa pelas escadas, e ficava por aí. Hoje foi o 4º dia da sua visita e a partida para Roma. E a palavra "Adeus" ainda gravada na minha memória. Sou um pouco como os sioux dos filmes, nunca gostei de dizer "adeus".

 

Ficou-me na alma a confiança nessa experiência vital que somos desafiados a viver neste espaço-tempo. Hoje o Papa disse-o no Porto: não podemos ficar apenas pela realização individual, esse espaço protegido, não nos podemos contentar com essa morte a prazo, temos de sair dessa mediocridade e dedicar a vida aos outros. Como cristãos, temos uma missão, o bem comum.

 

Dizer que a sua voz iluminada me comoveu é pouco. E penso que terá comovido muitos mais como eu. É o terceiro Papa que vejo chegar e partir: Paulo VI, tinha eu 9 anos, assisti à sua visita pela televisão; João Paulo II, vi-o em Braga, na subida de um monte sagrado; Bento XVI ouvi-o em Fátima, peregrino entre peregrinos.

Esta foi a visita papal que senti como mais necessária e benéfica para um país desmoralizado. Coincidentemente, como nos encontros felizes, também o Papa precisava desta autenticidade e carinho, tão portugueses, esse nosso lado luminoso que eu já julgava perdido, mas que não se perdeu, está mais vivo do que nunca.

 

Confiança e gratidão. Veio ao nosso encontro. Veio lembrar-nos quem somos, a nossa vocação universal (Lisboa), a mensagem de Cristo, da paz e do amor, a vigilância e a coragem (Fátima), o diálogo e a nossa missão cristã (Porto).

 

Tempos estranhos nos rodeiam, nebulosos e cinzentos, e no entanto, estranhamente metálicos (a linguagem do poder, como disse o Papa, da lei do mais forte sobre o mais fraco). Só uma comunidade que reencontrou os seus laços afectivos, a sua natureza original, a sua essência, pode resistir ao que aí vem e manter a sua cultura comunitária, em que há um lugar para todos e em que cada é reconhecido na sua dignidade intrínseca. É a fraternidade que nos mantém como comunidade. Sem essa dimensão, é a lei da selva, não é a civilização, o melhor do nosso caminho civilizacional.

 

Obrigada, Santo Padre! Obrigada por ter vindo ao nosso encontro. Obrigada por nos ter dado a alegria de sentir a ligação ao essencial da vida e do amor. E por termos tido esta experiência de ver confirmada a nossa identidade cultural cristã e a ligação aos valores que nos trouxeram até aqui.

 

 

publicado às 21:50

"Os vendilhões do templo"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.05.10

No dia 13 de Maio, dia de Nossa Senhora, dia festivo e branco, em que o Papa Bento XVI se mantém ainda entre nós, peregrino entre os peregrinos, o último tema em que deveria pensar sequer seria este, o da política caseira no regime republicano. Mas a vida é mesmo assim e os homens, quando pensamos que já não nos podem decepcionar mais, e aqui refiro-me à personagem a quem demos o nosso benefício da dúvida, à do PSD saído das Directas, ainda assim conseguem descer mais uns degraus nessa escada labiríntica e tortuosa...

Essa é a sua lógica, a da linguagem do poder, vazia, artificial, mesquinha. Esta também é a cultura do regime republicano, em que fraternidade é apenas palavra decorativa porque não sentida e vivida.

 

A voz dissonante vem hoje, dia de Nossa Senhora, de Portugal Rainha, do Portugal dos Pequeninos. Vale a pena ler, antes de termos de ouvir as conferências das personagens deste teatro de ilusões (é que quem manda já é Bruxelas, mas quem distribui os sacrifícios num país vampirizado e desmoralizado são estes "vendilhões").

 

Dos vendilhões, pois:

 

Alguns leitores deste blogue imaginam que, por ser católico, tenho de ser complacente com os vendilhões do templo. Deviam saber que, a esses, Jesus não trouxe a paz. Expulsou-os do templo. A minha insignificante prosa é a homenagem que faço a esse momento também ele fundador da fé. Se Portugal está genericamente na mão dos descendentes desses vendilhões, em versão mais sofisticadamente rasca, devo poupá-los? E eles, poupam-nos? Ainda hoje, dois deles, encontraram-se em Lisboa, à sucapa, aproveitando a presença do Papa em Fátima e a circunstância de as atenções para lá estarem viradas, para decidirem o futuro próximo das vidas dos outros. Se algum leitor vê esperança em gente desta, então está enganado acerca da autêntica esperança que salva. E ainda mais engando está acerca da liberdade. Da dele, leitor, naturalmente. Os vendilhões, quando muito, só tentam salvar-se a eles mesmos. Nada dão a ninguém - nem esperança, nem liberdade. Dar-lhes luta é, pois, um dever cívico, de esperança e de liberdade indeclinável. Vem nos livros.

Por João Gonçalves   "

 

 

 

publicado às 14:53

Papa Bento XVI e a vitalidade da cultura cristã

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.10

Nunca uma visita foi tão desejada e tão acarinhada por quem se dedica a ler os sinais dos tempos... De certo modo, acalentei esta esperança mas sem criar muitas expectativas. Embora sabendo que a cultura-base cristã está inscrita num lugar de nós que não precisa de se apoiar em símbolos ou em territórios, vibra e exprime-se na vitalidade das famílias e das gerações, estes são tempos muito estranhos.

O Papa Bento XVI entende estes tempos, como poucos. Porque para entender estes tempos é preciso estar sintonizado, vibrar com a vitalidade original da cultura cristã. Não há outro modo de os entender, sem nos perdermos na sua lógica labiríntica. Ao defender as origens e a tradição, colocou no centro desta comunidade cristã a dignidade individual e colectiva, a responsabilidade individual e colectiva. É muito mais do que uma questão identitária de fronteiras de grupos religiosos. É uma questão moral profunda, de uma reflexão necessária.

Por isso a sua voz é tão incómoda. Porque questiona os caminhos tortuosos e ambíguos, as referências e os valores destrutivos, o mundo a preto e branco dos totalitarismos, e coloca em cada indivíduo a responsabilidade individual e colectiva.

É essa a bússula interior que nos permite viver sem conflitos internos e encontrar a paz interior, a nossa claridade. Alguém que viva em permanente conflito interior está muito vulnerável e permeável aos valores e referências artificiais, mas alguém que observa e está vigilante, mesmo que hesite e vacile, encontra sempre o seu ponto de equilíbrio.

O mal não nos é exterior, essa é a linguagem que divide e destrói. O mal está sempre presente, em maior ou menor grau, em cada palavra, atitude, motivação. E há o mal de que nem suspeitamos, de uma natureza e dimensão impensáveis, mas já o vislumbrámos em momentos históricos, quando tudo parece confluir para esse labirinto mortífero. A História conhece-o, mas ainda assim é preciso saber da sua existência e evitar que se repitam as condições para essa repetição. Está, por isso, muito mais próximo do que pensamos, mas a forma de lidar com essa variável humana terá de se basear nessa cultura-base cristã, não nos deixando enredar pela lógica destrutiva e devoradora que nos rodeia.

É essa a importância da visita do Papa Bento XVI a um país que está vulnerável e permeável a essa cultura labiríntica e destrutiva em curso, mas que conseguiu resistir, até hoje, a séculos de domesticação artificial e bélica. É obra! Acredito profundamente que essa vitalidade anímica se perpetuou de geração em geração, na família, foi assim comigo por exemplo, e conseguiu sobreviver por isso mesmo à influência dos tempos.

Esta visita do Papa a Portugal vem lembrar-nos quem somos e quem queremos continuar a ser.

 

  

publicado às 11:49

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